Por que o ensino importa

Como foi escrito no texto introdutório, o blog tem um foco educativo, o que significa que procurará refletir constantemente os motivos e consequências do não aprendizado sobre a história das mulheres futuramente tratadas neste espaço. Conclui que talvez fosse importante escrever inicialmente um pouco sobre as razões que me fazem crer que o conhecimento de uma história distinta possa ser revolucionário. O blog surgiu de uma ideia inicial de que seria interessante ter material em português que pudesse auxiliar o ensino escolar sobre o assunto, esse espaço é a tentativa inicial da caminhada.

Há livros que transformam nossas vidas e há aqueles excepcionais que você reconhece isso enquanto lê. O livro ‘Lies my teacher told me’, de James W. Loewen, é um deles na minha vida. Na época que o li cursava minha graduação em História e estava começando a refletir sobre o ensino, porém foi esse livro que iniciou meu interesse por questionar o que ensinamos e os seus efeitos sobre alunos, mas especialmente sobre minorias políticas. O livro trata sobre os erros e mentiras que livros didáticos americanos ensinam a estudantes, sempre questionando como isso afeta a percepção da sociedade e de si mesmo (o capítulo ‘Red Eyes’ sobre os indígenas é memorável). Recomendo a leitura (o livro em inglês está disponível online!) e é utilizando-o como base que escrevo agora.

História raramente é a matéria preferida das crianças e adolescentes na escola. Não me baseio em algum dado sobre escolas brasileiras, porém na percepção que tenho da vivência da sala de aula. Talvez não esteja abaixo de química ou física (pelo menos espero), mas não é apontada com efusão como a matéria mais interessante pelos alunos. Normalmente classificada como chata, repetitiva e desinteressante, não atrai os alunos para o aprendizado.

Pode-se culpar a estrutura do vestibular para o problema, afinal há um número exorbitantes de fatos históricos que devem ser aprendidos para talvez cair na prova. Todavia como uma pessoa que foi apaixonada por história desde os 13 anos, que lia livros didáticos inteiros pela chance de aprender mais, afirmo que eu lia outros materiais durante as aulas de História. Se eu, que me identifico de tal forma desde minha sexta série, não me importava com as aulas até sair da escola, é de se esperar que pessoas que não gostavam e faziam por obrigação se interessassem mais do que eu? O motivo para tal? As aulas eram chatas e repetitivas. Eu sinceramente não conseguia compreender por que teria que aprender pela terceira vez, no meu último ano, sobre a Idade Média.

Eu vejo história como um dos assuntos mais interessante que alguém pode estudar, é vasto, complexo, transformador e fascinante. É algo que não fica preso ao ensino da sala, possibilita entendermos o mundo que nos cerca ao explicar a colonização e escravidão por exemplo. Porém não é isso que encontramos na sala de aula, o que há são professores, mal pagos e com excesso de disciplinas para ensinar, que fazem um relato linear com diversos dados jogados no processo.

Esta é a questão, a matéria que tinha mais chance de interessar, perde seu potencial ao ser ensinada de tal forma. Livros de Jane Austen continuam sendo vendidos e filmes sobre o Império Romano ainda lotam salas de cinema. Não é que pessoas não se interessam pelo passado, simplesmente não interessam pela forma que é ensinado.

Estamos presos em dados sobre como Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, encontrou a terra desabitada e simplesmente surgiu uma colônia portuguesa que prosperou a base da plantação de açúcar. Não se questiona sobre os milhares de indígenas que foram assassinados durante o processo ou os africanos que foram tragos para serem explorados. Povos inteiros foram subjugados e utilizados como base para o surgimento da nação, porém são simplesmente notas no final da página, ignorados no rolo compressor que a história é ensinada.

E como as mulheres se inserem nisso? No caso da história brasileira, ignoramos as indígenas e africanas que foram violentadas para o surgimento da tal adorada miscigenação ou as mulheres brancas impedidas de estudar que ficaram isoladas em casa. Como podemos esperar que alguém perceba a sociedade patriarcal que vivemos se não compreendemos sua origem? Continuamos a ignorar que a mulher só pôde votar a partir de 1945, embora a República tenha sido instaurada em 1889. Simplesmente se naturaliza a estrutura social e se explica através da preponderância dos homens.

E isso não ocorre simplesmente no estudo histórico, embora seja mais evidente, porém em outros campos igualmente ignoramos a atuação feminina. Ensinam sobre a abundância de hidrogênio e hélio nas estrelas, mas esquecem de informar que Cecilia Payne-Gaposchkin foi a pessoa a descobrir – o mesmo não ocorre no caso de Isaac Newton.

É na sala de aula que se oferece os instrumentos para se compreender a sociedade, tanto aquela que nos atinge diretamente quanto aquelas que parecem tão longe que não faz diferença. Precisamos oferecer ferramentas melhores. Se ensinamos que a história é construída, ensinamos igualmente que é possível mudá-la. Ao ensinarmos sobre mulheres extraordinárias, reafirmamos a possibilidade de todas serem.

Fonte: LOEWEN, James. Lies My Teacher Told Me: Everything Your American Textbook Got Wrong. New York: Simon & Schuster, 2007.

Imagem em destaque de Shanti Uganda

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